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...escrevo no meu velho caderno porque preciso escrever, nele liberto a besta interior e os meus pensamentos são livres de existir...

Caixeiro-viajante (o meu heterónimo mais solitário)

Botas gastas calcorreiam os passeios das avenidas distantes de casa e a sacola pesada e rota parece não aguentar mais um quilómetro sequer.
O sol quente fustiga quem se atreve a cruzar o seu caminho mas o caixeiro não pára, não pode parar, caminha com determinação fingida para lugar algum e tem planeado um trajecto que sabe nunca poder cumprir. Caminha cansado para não parar, não vá o pensamento assaltar-lhe a mente e obrigá-lo a encarar a verdade. Dorme exausto nos campos e nas cidades, e sonha obrigatoriamente com tudo a que tenta fugir.
Já caminhou descalço e possuiu artigo nenhum, já foi rico em demasia e agora caminha para todo o lado e caminha para lado nenhum.
É caixeiro de profissão, solitário por opção mas sozinho por natureza. O caixeiro nunca tem companhia e nunca fala para ninguém senão para prover o seu sustento, conversa consigo as questões essenciais da sua existência e renega a necessidade de socializar.
Come por necessidade e nunca por prazer, prazer é literário, o caixeiro não gosta de ler. Desvia a atenção de quase ninguém, funde-se muitas vezes na natureza citadina por onde viaja e ocupa muito pouco espaço no mundo…
Um ser arrogante (consigo mesmo) e desrespeitador da intelectualidade pessoal, acredita que nunca será capaz de se libertar da situação em que vive e não admite falsas esperanças lançadas do inconsciente… tem cimentado no lado mais racional que nunca será alguém.

Amor Platónico

O amor platónico nasce num olhar e desenvolve-se na mente…
Cria vidas enlaçadas em si mesmas e desenrola-se na mais perfeita comunhão. Nunca ninguém se fere e não há, de certeza absoluta e sem dúvida nenhuma, desgosto algum. Há mistérios sem intrigas, gestos altruístas de verdadeiro amor e nem uma gota de ciúme tresloucado que contamina a “fisicalidade” de qualquer relação.
Amor platónico alimenta qualquer esperança futura, congemina organicamente necessidades de união. Revela sabores diferentes, tactos novos, odores especiais e visões magistrais. Troca as voltas aos mais fracos de espírito, mas enlouquece qualquer sonhador.
Amor platónico sobe pela espinha e arrepia quem o sente, amor platónico é sem sombra de dúvidas amor que vive da mente…

Cartas

Em papel branco escrevo, letra a letra, conteúdos diversos e universais. Palavras amorfas não encontradas em dicionários normais. Textos estranhos sem sentido e rascunhos com a verdade do mundo, tudo escrito a tinta cor laranja-latão. Pantomimas tentadas e arremessadas ao lado e longos legados em pergaminho que não saíram da imaginação. Mensagens longas escritas a pena e pequenos recados batidos a dedo num qualquer pedaço de papel. Pinturas antigas em pedras gravadas, em madeiras cravadas, no metal moldadas com a força de uma missão. Gravadas para sempre em qualquer lugar, senão for para sempre, o suficiente para alguém as lembrar.

E mesmo assim não me vês

E caminho hoje pelas ruas, divago nos caminhos perdidos, escolho direcções a tomar nos cruzamentos despidos, mas tu não me vês... E caminho ao teu lado, divago atrás de ti perdido, escolho direcções nos cruzamentos à tua frente, mas tu não me vês... E desenho-te um mundo, pinto-te um sol, crio-te um universo numa nota musical …e mesmo assim não me vês.

E falo contigo sem saberes quem sou, dou-me a conhecer e mostro-me integralmente mas tu não me vês… abro completamente portas jamais abertas e luto batalhas inconscientes, mas tu não me vês… e transformo-me em mim, moldo-me à tua forma mas tu não me vês… faço-me de forte qual guerreiro elemental, mostro o meu lado intelectual, e tudo mais o que vem no meio e mesmo assim não me vês…
E uso o meu tempo contigo, e torno-me um porto de abrigo, altero-me para me tornar melhor…
E mesmo assim não me vês…