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...escrevo no meu velho caderno porque preciso escrever, nele liberto a besta interior e os meus pensamentos são livres de existir...

"Ao compreenderes completamente a tua importância no meu mundo jamais te tomarás por simples mortal. No meu peito és Eterna"

apaixonei-me por ti lua

Nas primeiras confissoes trocadas enlaçaste-me no teu luar e nos teus reflexos encontrei-me a ansiar por ti.
Na tua sombra imaginei que me tecias em fios de prata por ti criados num acto de espelhada paixão
Enamorado da tua presença te observava, e elevava a tua essência num sublime toque em que nos teus lábios me perdia...


se eu te aclamasse lua...

...

Soubesse eu o que dizer e di-lo-ia
Soubesse eu o que fazer e fá-lo-ia
Soubesse eu como me sinto e saberias também
Pudesse eu escolher sair de dentro de mim apenas o que de mim verdadeiramente gosto e seria esse o verdadeiro eu.
Mas não encontrando outra maneira acredito apenas que possam encontrar, com pedaços de histórias, o livro completo que define quem sou.

Obrigado

Degraus da minha calçada que foram pisados por todos, continuais a existir, subsistis às investidas do tempo e da população. Degraus da minha calçada que permaneceis intactos, nunca efêmeros em existência, nunca aclamados pela resistência que proveis. Degraus da minha calçada, eu que vos vejo como verdadeiramente são, agradeço a vossa resolução, permaneçam fiéis aos vossos desígnios e sereis eternamente especiais…

És o Deus das pequenas coisas:

Do momento em que me olhas nos olhos,
Da primeira carta que li, do primeiro beijo roubado e do segundo oferecido.
Da cama onde descansa o meu corpo vazio, da morada onde habito e do nome por que me conhecem,
Das horas nocturnas, da luz solar e dos entretantos,
Dos passos que dou, dos que queria ter dado e dos que, com certeza, darei,
Dos sons que ouço em meu redor, dos produzidos por mim e ouvidos por seja quem for,
Das palavras escritas a toda a hora em todas a horas,

Deus dos meus sentimentos, mas minhas necessidades e das minhas paixões,

Deus imutável,

Deus das pequenas coisas,

Deus das coisas normais.

Eu

Dizem-nos que não devemos estar ligados ao mundo interior porque crescemos e devemos enfrentar o real?
Blasfémia da hipocrisia que rege o mundo, nunca vou deixar de sonhar, não quero morrer sem conhecer todos os que habitam dentro me mim.
As minhas hipóteses são o oxigénio do meu corpo, e os meus mundos opostos são o sangue que me aquece as veias...
Invento ideias, cores, tramas, para conhecer, explicar e dissecar os pedaços do meu corpo que não me pertencem mas são meus.
Fujo para dentro de mim qual doença que me afecta o cérebro e me torna mais um animal irracional, mas apenas no exterior pois por dentro sou livre e ninguém me pode prender...
Cá dentro não sou um órfão que vive no sótão do meus avós e não tenho que contar os dias até à altura em que vou ser livre de partir...
Cá dentro não estou preso por amarras sociais que me dizem para estar quieto pois a pobreza é uma doença e a inteligência nunca me vai levar a lado nenhum, cá dentro não tenho que adormecer sozinho à noite na cama vazia de emoções porque não posso berrar...

Há dois mundos dentro de mim: aquele que controlo a meu bel-prazer e me refugio quando ninguém me alcança e aquele que me prende e me faz pensar, desdobrar realidades para ter "todos os pontos nos is" desdobrar esses desdobramentos e viver os mais terríveis a todos os momentos para que quando esses venham não me doa nem mais um pouco o coração...

A mim foi a vida que criou este lado, e este lado consome-me a cada momento...

Mas o outro lado bate-se em cada estocada, o lado onde sei voar e onde as minhas máscaras se desfazem e onde eu me encontro comigo...
Às vezes dentro de mim há vários “eus”… e dentro de mim às vezes não há ninguém… às vezes encontro-me a passear cá dentro e pergunto me quem sou. Nunca obtive resposta legível, talvez porque se a tivesse não quereria mais voltar… cá dentro é tão quente e sinto a verdadeira paz… calma além do inconsciente e libertação do que me faz mal.
Às vezes acordo e o ar está mais quente e o sol mais aconchegante, às vezes acordo e sinto que posso, não é poder uma coisa qualquer é poder tudo…
22 Anos de lutas não geram almas vazias, fizeram me crescer e ser quem sou, fizeram-me querer mais e ser maior, ser não apenas mais um número no livro das vidas que me rodeiam mas sim chegar mais alto para poder passar para fora um pouco do que criei cá dentro, do meu lado bom…

Cá fora é diferente: luto diariamente contra a maré mas ninguém repara que às vezes me afogo….

Acorda-me

Acorda-me porque quero viver, acorda-me porque devo estar deitado para não sentir o que é a vida, devo estar dormitando num qualquer lugar e não devo ter reparado que o sonho se apoderava de mim. Seguramente durmo num qualquer lugar.
Então acorda-me porque quero viver, não perder mais tempo inanimado, tomar as minhas decisões de mente limpa e viver as reacções emanadas daí… acorda-me porque quero mesmo viver, quero estar ciente da minha realidade, quero querer avançar e conseguir fazê-lo… só posso estar a dormir…e é mais que tempo de acordar.
Acorda-me para poder sonhar… sonhar acordado e realizar esses sonhos, acorda-me para eu sair do lugar com o direito de voltar mesmo sabendo que não volto, acorda-me para eu te acordar também… acorda-me…

Se não bates eu não posso viver

Bate coração, rasga-me o peito de uma assentada, mas deixa-me sonhar.
Desprende-me as amarras que me toldam a mente para que veja com olhos de ver a verdade que é a minha imaginação.
Bate coração e abre-me o peito de uma vez, talvez saiam assim os pensamentos que me colam o corpo e não me deixam correr e amarram as asas com que voo para lado algum...
Bate coração, porque se não bates eu não posso viver...

Caixeiro-viajante (o meu heterónimo mais solitário)

Botas gastas calcorreiam os passeios das avenidas distantes de casa e a sacola pesada e rota parece não aguentar mais um quilómetro sequer.
O sol quente fustiga quem se atreve a cruzar o seu caminho mas o caixeiro não pára, não pode parar, caminha com determinação fingida para lugar algum e tem planeado um trajecto que sabe nunca poder cumprir. Caminha cansado para não parar, não vá o pensamento assaltar-lhe a mente e obrigá-lo a encarar a verdade. Dorme exausto nos campos e nas cidades, e sonha obrigatoriamente com tudo a que tenta fugir.
Já caminhou descalço e possuiu artigo nenhum, já foi rico em demasia e agora caminha para todo o lado e caminha para lado nenhum.
É caixeiro de profissão, solitário por opção mas sozinho por natureza. O caixeiro nunca tem companhia e nunca fala para ninguém senão para prover o seu sustento, conversa consigo as questões essenciais da sua existência e renega a necessidade de socializar.
Come por necessidade e nunca por prazer, prazer é literário, o caixeiro não gosta de ler. Desvia a atenção de quase ninguém, funde-se muitas vezes na natureza citadina por onde viaja e ocupa muito pouco espaço no mundo…
Um ser arrogante (consigo mesmo) e desrespeitador da intelectualidade pessoal, acredita que nunca será capaz de se libertar da situação em que vive e não admite falsas esperanças lançadas do inconsciente… tem cimentado no lado mais racional que nunca será alguém.

Amor Platónico

O amor platónico nasce num olhar e desenvolve-se na mente…
Cria vidas enlaçadas em si mesmas e desenrola-se na mais perfeita comunhão. Nunca ninguém se fere e não há, de certeza absoluta e sem dúvida nenhuma, desgosto algum. Há mistérios sem intrigas, gestos altruístas de verdadeiro amor e nem uma gota de ciúme tresloucado que contamina a “fisicalidade” de qualquer relação.
Amor platónico alimenta qualquer esperança futura, congemina organicamente necessidades de união. Revela sabores diferentes, tactos novos, odores especiais e visões magistrais. Troca as voltas aos mais fracos de espírito, mas enlouquece qualquer sonhador.
Amor platónico sobe pela espinha e arrepia quem o sente, amor platónico é sem sombra de dúvidas amor que vive da mente…

Cartas

Em papel branco escrevo, letra a letra, conteúdos diversos e universais. Palavras amorfas não encontradas em dicionários normais. Textos estranhos sem sentido e rascunhos com a verdade do mundo, tudo escrito a tinta cor laranja-latão. Pantomimas tentadas e arremessadas ao lado e longos legados em pergaminho que não saíram da imaginação. Mensagens longas escritas a pena e pequenos recados batidos a dedo num qualquer pedaço de papel. Pinturas antigas em pedras gravadas, em madeiras cravadas, no metal moldadas com a força de uma missão. Gravadas para sempre em qualquer lugar, senão for para sempre, o suficiente para alguém as lembrar.

E mesmo assim não me vês

E caminho hoje pelas ruas, divago nos caminhos perdidos, escolho direcções a tomar nos cruzamentos despidos, mas tu não me vês... E caminho ao teu lado, divago atrás de ti perdido, escolho direcções nos cruzamentos à tua frente, mas tu não me vês... E desenho-te um mundo, pinto-te um sol, crio-te um universo numa nota musical …e mesmo assim não me vês.

E falo contigo sem saberes quem sou, dou-me a conhecer e mostro-me integralmente mas tu não me vês… abro completamente portas jamais abertas e luto batalhas inconscientes, mas tu não me vês… e transformo-me em mim, moldo-me à tua forma mas tu não me vês… faço-me de forte qual guerreiro elemental, mostro o meu lado intelectual, e tudo mais o que vem no meio e mesmo assim não me vês…
E uso o meu tempo contigo, e torno-me um porto de abrigo, altero-me para me tornar melhor…
E mesmo assim não me vês…

Outono de sabores desiguais…

Outono de cores quentes e molhadas, Outono de sombras largas cansadas.
Outono de chuvas frias que entram em todo o lugar, Outono que mostra de mãos vazias estar.
Outono pulsante das ruas da avenida e nos becos em seu redor, Outono centrado em tanta gente e sem um só senhor.

Outono de sabores tão diferentes… Outono de sabores desiguais…

Outono quente à chegada e nunca frio à partida, Outono que permanece por onde passa e nunca está em lugar algum, Outono antigo cheio de lembranças e Outono nascido ontem que não lembra nada nem ninguém. Outono tão natural como o ar em si, Outono estranho e cheio de mistérios como nunca vi. Outono vazio, Outono cheio de cor... e sabor...

Outono de sabores tão parecidos… Outono de sabores desiguais...

A minha cidade interior

Estúpidas derivações ao calhas que têm como cerne apontar uma direcção, porque estou mais uma vez perdido sem saber porquê.
Estas ruas esquisitas que nos confundem em qualquer parte do trajecto, não importa a direcção tomada. Este piso que teima em não me deixar andar ao meu ritmo e exige mais de mim que aquilo que posso dar.
Nos dias de sol ilumina-se a praça onde me podem encontrar, quando chove resguardo-me num qualquer rebordo que surge na parte escura da minha vontade.
Nas ruas da minha cidade não se pode parar, não se pode falar, não se pode sentir seja o que for ou és engolido pelo chão. Nas minhas ruas não se pode voltar atrás e cada atalho leva a lugar nenhum, estás sempre perdido não interessa para onde vais, nunca consegues achar o teu lugar. Na minha cidade não há direcções e em nenhum lugar é o norte, nem sul ou qualquer outra direcção. Na minha cidade não há ninguém senão eu, na minha cidade ninguém quer entrar senão na praça principal onde me podem encontrar, mas apenas nos dias de sol.
Na minha cidade não sou eu quem manda pois é a minha cidade quem manda em mim, apesar de existir apenas cá dentro, ela criou-se assim…