Botas gastas calcorreiam os passeios das avenidas distantes de casa e a sacola pesada e rota parece não aguentar mais um quilómetro sequer.
O sol quente fustiga quem se atreve a cruzar o seu caminho mas o caixeiro não pára, não pode parar, caminha com determinação fingida para lugar algum e tem planeado um trajecto que sabe nunca poder cumprir. Caminha cansado para não parar, não vá o pensamento assaltar-lhe a mente e obrigá-lo a encarar a verdade. Dorme exausto nos campos e nas cidades, e sonha obrigatoriamente com tudo a que tenta fugir.
Já caminhou descalço e possuiu artigo nenhum, já foi rico em demasia e agora caminha para todo o lado e caminha para lado nenhum.
É caixeiro de profissão, solitário por opção mas sozinho por natureza. O caixeiro nunca tem companhia e nunca fala para ninguém senão para prover o seu sustento, conversa consigo as questões essenciais da sua existência e renega a necessidade de socializar.
Come por necessidade e nunca por prazer, prazer é literário, o caixeiro não gosta de ler. Desvia a atenção de quase ninguém, funde-se muitas vezes na natureza citadina por onde viaja e ocupa muito pouco espaço no mundo…
Um ser arrogante (consigo mesmo) e desrespeitador da intelectualidade pessoal, acredita que nunca será capaz de se libertar da situação em que vive e não admite falsas esperanças lançadas do inconsciente… tem cimentado no lado mais racional que nunca será alguém.
...escrevo no meu velho caderno porque preciso escrever, nele liberto a besta interior e os meus pensamentos são livres de existir...
Caixeiro-viajante (o meu heterónimo mais solitário)
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1 comentários:
Carlos, adorei seu blog!
Adorei o estilo, a música que toca só se quisermos, o tom de azul, a formatação, mas, em especial, adorei os textos!
Você tem muito talento, parabéns!
Escreva sempre, muito, e exponha suas idéias para todos!
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