Dizem-nos que não devemos estar ligados ao mundo interior porque crescemos e devemos enfrentar o real?
Blasfémia da hipocrisia que rege o mundo, nunca vou deixar de sonhar, não quero morrer sem conhecer todos os que habitam dentro me mim.
As minhas hipóteses são o oxigénio do meu corpo, e os meus mundos opostos são o sangue que me aquece as veias...
Invento ideias, cores, tramas, para conhecer, explicar e dissecar os pedaços do meu corpo que não me pertencem mas são meus.
Fujo para dentro de mim qual doença que me afecta o cérebro e me torna mais um animal irracional, mas apenas no exterior pois por dentro sou livre e ninguém me pode prender...
Cá dentro não sou um órfão que vive no sótão do meus avós e não tenho que contar os dias até à altura em que vou ser livre de partir...
Cá dentro não estou preso por amarras sociais que me dizem para estar quieto pois a pobreza é uma doença e a inteligência nunca me vai levar a lado nenhum, cá dentro não tenho que adormecer sozinho à noite na cama vazia de emoções porque não posso berrar...
Há dois mundos dentro de mim: aquele que controlo a meu bel-prazer e me refugio quando ninguém me alcança e aquele que me prende e me faz pensar, desdobrar realidades para ter "todos os pontos nos is" desdobrar esses desdobramentos e viver os mais terríveis a todos os momentos para que quando esses venham não me doa nem mais um pouco o coração...
A mim foi a vida que criou este lado, e este lado consome-me a cada momento...
Mas o outro lado bate-se em cada estocada, o lado onde sei voar e onde as minhas máscaras se desfazem e onde eu me encontro comigo...
Às vezes dentro de mim há vários “eus”… e dentro de mim às vezes não há ninguém… às vezes encontro-me a passear cá dentro e pergunto me quem sou. Nunca obtive resposta legível, talvez porque se a tivesse não quereria mais voltar… cá dentro é tão quente e sinto a verdadeira paz… calma além do inconsciente e libertação do que me faz mal.
Às vezes acordo e o ar está mais quente e o sol mais aconchegante, às vezes acordo e sinto que posso, não é poder uma coisa qualquer é poder tudo…
22 Anos de lutas não geram almas vazias, fizeram me crescer e ser quem sou, fizeram-me querer mais e ser maior, ser não apenas mais um número no livro das vidas que me rodeiam mas sim chegar mais alto para poder passar para fora um pouco do que criei cá dentro, do meu lado bom…
Cá fora é diferente: luto diariamente contra a maré mas ninguém repara que às vezes me afogo….
Eu
Acorda-me
Acorda-me porque quero viver, acorda-me porque devo estar deitado para não sentir o que é a vida, devo estar dormitando num qualquer lugar e não devo ter reparado que o sonho se apoderava de mim. Seguramente durmo num qualquer lugar.
Então acorda-me porque quero viver, não perder mais tempo inanimado, tomar as minhas decisões de mente limpa e viver as reacções emanadas daí… acorda-me porque quero mesmo viver, quero estar ciente da minha realidade, quero querer avançar e conseguir fazê-lo… só posso estar a dormir…e é mais que tempo de acordar.
Acorda-me para poder sonhar… sonhar acordado e realizar esses sonhos, acorda-me para eu sair do lugar com o direito de voltar mesmo sabendo que não volto, acorda-me para eu te acordar também… acorda-me…
Se não bates eu não posso viver
Bate coração, rasga-me o peito de uma assentada, mas deixa-me sonhar.
Desprende-me as amarras que me toldam a mente para que veja com olhos de ver a verdade que é a minha imaginação.
Bate coração e abre-me o peito de uma vez, talvez saiam assim os pensamentos que me colam o corpo e não me deixam correr e amarram as asas com que voo para lado algum...
Bate coração, porque se não bates eu não posso viver...